"A língua é ou faz parte do aparelho
ideológico, comunicativo e estético da sociedade que a própria língua define e
individualiza." (Leonor Buescu)
Só a partir da segunda metade
do século XVIII é que o Brasil pode começar a ser definido como um espaço de
língua dominante portuguesa, devido à conhecida política lingüístico-cultural
desenvolvida pelo Marquês de Pombal. A repressão ao uso de línguas indígenas,
sobretudo de base tupi tronco lingüístico mais difundido na área já colonizada,
desencadeada por essa orientação política, tirou o Brasil de um rumo que
poderia tê-lo levado a ser um país de base lingüística majoritariamente
indígena.
Os dois séculos e meio de
colonização que precederam a decidida política pombalina recobrem múltiplas
situações de contacto lingüístico, entre falantes da Língua Portuguesa e
centenas de línguas autóctones (continuam vivas e em uso, por minorias, é
claro, ainda cerca de 180 delas) e múltiplas línguas africanas, chegadas ao
Brasil desde 1538 até à extinção do tráfico no século XIX. " (Rosa
Virgínia Mattos e Silva, 1995, " O Português são dois")
Embora tendo prevalecido sobre
as demais línguas aqui postas em contato, o português não poderia deixar de
sofrer modificações e de receber influências e contribuições. A influência tupi
é mais significativa no vocabulário, conforme se verifica nos exemplos abaixo.
Topônimos
Abaeté, Andaraí, Aracaju, Anhangabaú, Atibaia,
Araxá, Baependi, Bagé, Bauru, Borborema, Butantã, Caçapava, Cabuçu, Caju, Carioca,
Catete, Catumbi, Cambuquira, Gamboa, Guanabara, Guaratiba, Jacarepaguá,
Jurujuba, Inhaúma, Irajá, Icaraí, Itajaí, Maracanã, Pavuna, Pará, Paraná,
Paranaguá, Paranaíba, Paraopeba, Paranapanema, Tijuca, Taubaté, Tamandaré,
Tabatinga, Sumaré, etc.
Antropônimos
Araci, Baraúna, Cotegipe, Caminhoá, Guaraciaba,
Iracema, Iraci, Jaci, Juraci, Jurema, Jupira, Jucá, Moema, Piragibe, Sucupira,
Ubirajara, Araripe, Sinimbu, Bartira, Graciema, Inaiá, Irani, Jacira, Jandira,
Iara, Oiticica, etc.
Flora
Abacaxi, brejaúva, buriti, carnaúba, capim,
caruru, cipó, jacarandá, jaboticaba, peroba, pitanga, canjarana, caroba,
jiquitibá, mandioca, aipim, imbuia, ingá, ipê, sapé, taquara, tiririca,
araticum, maracujá, caju, caatinga, etc.
Fauna
Araponga, acará, caninana, capivara, coati,
curiango, curió, gambá, irara, jacu, jaburu, jararaca, juriti, lambari, nhambu,
mandi, paca, piranha, sabiá, sanhaço, maitaca, saúva, tamanduá, siriema,
tanajura, tatu, urubu, saracura, surubi, sucuri, sagüi, etc.
Usos, Costumes, Crenças, Moléstias.
Arapuca, jacaá, pari, tipiti, urupema; moqueca,
curau, mirandó; saci, caipora, curupira, cuca; sapiroca, catapora, sapiranga;
pororoca, piracema, carijó, sambanga, sarambê, punga, etc.
Fraseologia
Estar ou andar na pindaíba, andar ao uatá ou atá,
chorar pitanga, estar à tocaia ou de tocaia, cair na arataca, estar em arataca,
ficar de bubuia, etc.
As áreas lingüísticas mais afetadas pela
influência do negro foram a fonética e a morfologia, nas quais se nota uma
tendência para a simplificação. Os exemplos abaixo comprovam esta afirmação:.
Contribuições Africanas ao Léxico
Português
Embora menos acentuadamente, a área do
vocabulário também apresenta alguma influência africana.
Da Língua Nagô
Ogum, Orixá, vatapá, abará, cará, acarajé, afurá,
alujá, babalaô, babalorixá, Exu, orô, Oxum, Xangô, aberém, acassá, afofiê,
agogô, etc.
Do Quimbundo
Moleque, cachimbo, quitanda, maxixe, samba,
molambo, bangüê, banzar, caçula, cafuné, camundongo, canga, carcunda, cochilar,
dengue, fubá, marimbondo, marimba, birimbau, mocambo, muxiba, quitute, senzala,
sungar, xingar, etc.
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